Percorra os cômodos da casa. A cada passo, o ambiente muda e a planta baixa acende o cômodo da minha história.
O Lar sou eu, é você.
É o lugar para onde sempre voltamos, mesmo quando passamos a vida inteira tentando morar em outros lugares.
É onde guardamos tudo aquilo que fomos.
As lembranças.
As fotografias.
Os cheiros.
As cores.
As marcas do tempo.
As dores.
E também aquilo que ainda sonhamos ser.
O lar é onde descansamos.
É onde convidamos alguém para entrar.
É onde aprendemos, pouco a pouco, a pertencer.
No meu lar existe um quarto.
Nele estão guardadas as lembranças da infância.
As primeiras alegrias.
Os primeiros medos.
As noites em que aprendi a ficar sozinho.
É onde guardamos a primeira versão de nós mesmos.
É onde ainda voltamos, mesmo depois de crescidos.
Existe também uma cozinha.
Um lugar onde ainda sinto o cheiro do café, das conversas demoradas, da comida da avó, da mãe, das poucas lembranças do pai.
É ali que as pessoas se reúnem.
Onde a vida acontece ao redor da mesa.
E também foi onde meus pais se separaram quando eu era pequeno. A notícia do rompimento. E depois, o lugar onde vieram as lamentações, as tentativas de retomada, de recomeçar.
Hoje, ainda é ali que colocamos a mesa.
Que servimos o que sobrou.
E que tentamos, de novo, nos encontrar.
Há também um banheiro.
É o cômodo dos espelhos.
O lugar onde ficamos a sós com a nossa própria imagem. Onde ficamos nus. Sem roupas, sem máscaras.
Onde lavamos aquilo que o dia sujou.
E onde, às vezes, enxergamos o que preferíamos não ver.
É ali que a água leva embora o que o dia trouxe.
E onde, pela primeira vez, nos encontramos verdadeiros.
No fundo da casa há um banheiro desativado.
Chamamos de "banheirinho".
É onde colocamos tudo aquilo que não sabemos onde guardar.
Aquilo que ninguém quer ver.
Mas que continua existindo.
Silencioso.
Esperando ser aberto.
Esperando ser visto.
Esperando, enfim, pertencer.
Na frente da casa há um quarto.
É o cômodo que dá para a rua.
De onde se vê quem chega e quem parte.
É ali que guardamos aquilo que mostramos ao mundo.
E também o que ainda esperamos que o futuro traga.
A sala é feita de encontros.
De risadas.
De domingos.
De visitas. Do velho toca discos.
E, no centro dela, a televisão.
Por muitos anos ela é — e continua sendo — o lugar onde a minha família mais passa o tempo.
Como se a TV fosse a única janela para o mundo lá fora. Como se fosse a única forma de "distração".
Uma janela pra um mundo distante.
Na porta da frente há um pequeno vidro coberto por um pano.
Quando eu o levantava, conseguia olhar para o mundo sem precisar sair da casa.
É quase como um olho.
Levantava um pedacinho do pano da porta quando alguém chamava na frente de casa, querendo vender alguma coisa, algum pedinte, alguma visita.
Morar em casa com porta pra frente de bairro é assim, você tem a todo momento a possibilidade de alguém chamar, e ao espiar de canto, você escolhe se vai atender e deixar entrar.
A porta dos fundos dava para a casa dos meus avós.
Além deles, minha prima, 3 tios e duas tias moravam junto comigo até os meus 7 anos.
Depois da separação dos meus pais a casa dos fundos também se foi, junto com grande parte da minha família, dando espaço para o pátio dos fundos.
Toda casa guarda histórias.
Algumas são construídas por quem mora nela.
Outras são construídas pelo tempo.
Há paredes que carregam marcas.
Há objetos que ninguém mais usa.
Há cômodos que evitamos visitar.
E há portas que permanecem fechadas durante muitos anos.
O Lar Interno nasce desse convite.
Eu compartilhei como é o lar que me guardou até aqui.
Foi através da psicanálise clínica que eu consegui mapear a “planta da minha casa”, não para construir uma casa nova, mas para habitar, com mais presença, a casa que sempre existiu dentro de mim.
Vamos abrir, juntos, os cômodos da sua história?
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